Regenerar é sempre custoso
Curioso como muitas vezes pontuamos situações como parte de nosso propósito de vida e achamos que temos domínio sobre nossas escolhas por isso, no entanto, ao olharmos mais de perto observamos que esse mesmo propósito é seco de significado.
Quem gosta, assim como eu, de andar pelo caminho da distinção e o mais longe possível das superficialidades do mundo, sabe que, regenerar é um tanto quanto custoso eventualmente, porque tende a querer escapar-nos sorrateiramente quando em jogo entra a tal da sobrevivência.
Por mais estranho que pareça, é caótico nos depararmos com o poder de regeneração indo para o ralo porque a dor e o trauma de certas histórias ou mesmo do cotidiano nos força a racionalizar aspectos que num ponto de vista idealista e subjetivo nos é quase impossível de se conceber.
A verdade nua e crua que ninguém tem coragem de admitir é que o risco existe em qualquer situação ou lugar, e portanto, a segurança não passa de uma ilusão que colocamos no altar das superficialidades.
Acaba que nesses casos a urgência mais fala sobre nossa incapacidade de assumir o risco da responsabilidade pelo o que aprendemos nos tempos de dor do que sobre o caminho que é realmente certo ou melhor para nós. Isso não significa que a segurança não seja um tópico importante, mas comumentemente a definimos como o Deus de nossa carruagem quando ao fim de tudo não passa apenas de prevenção e quase nada do remédio.
Escolhas e Consequências
Compreender, profundamente, que não há como controlar o tempo nem as coisas que podem se suceder a partir de certas escolhas é incrivelmente complexo, pois envolve muitas camadas de desbaste e no geral não temos o poder de controlar nada, mas gostamos de pensar que sim.
Nesse caso, apenas podemos fazer escolhas e arcar com as suas consequências.
Essa prática me parece não ser exatamente sobre buscar a resposta certa, mas sobre ter plena consciência de seus efeitos e de suas motivações. Então, o que escolhemos para nós em cada instante de nossas vidas – um propósito superficial ou uma causalidade significativa?
Esse questionamento nos leva uma vez mais a Sartre.
“Viver é isso: Ficar se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequências.”
(Sartre)
A teoria costuma ser bem mais simples do que a prática e por isso evoluir é um grande desafio. Penso que não é sobre sermos bons ou ruins, perfeitos ou falhos, fazermos escolhas certas ou erradas, mas sobre fazermos sempre o melhor que podemos com o que temos ao nosso dispor naquele tempo-espaço. As vezes, tomar uma simples decisão será a coisa mais difícil que já fizemos em anos, mesmo que nos anos anteriores já tenhamos tomado decisões bem mais complicadas ou então aquela mesma decisão que nos volta para questionar se a tomaremos novamente.
Há situações em que nos chocamos quando nos deparamos com a verdadeira resposta se mostrando o oposto daquela que costumeiramente nos dávamos incontáveis vezes até o ponto de parecerem muito certas para nós e esse oposto não indica que não temos mais a coragem para agir conforme desejamos ou que estamos, literalmente, abrindo mão de algo importante para nós como nossa identidade, por exemplo.
Essa verdade nos indica que é somente quando aprendemos a dizer não para o que mais queremos é que finalmente entendemos profundamente o que realmente merecemos e consequentemente o nosso tempo de merecê-las.
Então, essas escolhas passam a ser apenas sobre a disposição para tomá-las e enfrentá-las, não mais sobre acertar o alvo com precisão como se a nossa felicidade fosse sempre apenas só isso.
No discernimento mora a resposta
Embora não pareça num primeiro momento, essa compreensão faz toda a diferença porque é justamente por termos adquirido a capacidade do discernimento é que agora estamos aptos a reconhecer o melhor caminho para nós. Mesmo que digamos não, o resultado seria apenas forma distinta para um mesmo fim – que tende a ser aquilo o que se define como valioso para nós.
Se há dois caminhos distintos, pode haver duas versões de você diferentes entre si ou não e também pode haver duas realidades diferentes ou não.
A escolha do caminho não se faz apenas pelo efeito dele ou pelo desejo de controlar a própria vida, ele se faz pelo discernimento de si no meio de todas as alternativas e a meu ver isso vai bem além das necessidades e das carências de onde definimos pontos de partida.
Sendo assim, não é exatamente o efeito de nossa escolha que definirá sempre nossa felicidade, mas sim o significado que damos à causa dele, pois o efeito é apenas uma consequência qualquer que pode ser previsível ou não em razão de sua distinção.
No entanto, ela não importa inteiramente para os fins, porque será a significação da causa que definirá se o efeito dela foi feliz e valioso – ou não.
Na prática, o que quero dizer com tal pensamento, é que essa escolha funciona como se depois que tivéssemos passado por grandes provações e aprendizados tivéssemos absorvido inteiramente o seu máximo teor de sabedoria e que nossa capacidade de discernimento para escolher o que é valioso para nós como identidade e/ou como ser humano, e portanto, ser apto a escolher o melhor caminho, só poderá resultar em felicidade e valor interno real se o que aprendemos na dor e na dificuldade serviu verdadeiramente para algo – ou não.
Se mesmo depois de passar tantas coisas dolorosas ainda escolhermos um caminho que, superficialmente, se mostra honrado diante delas, porém quando visto de perto são urgências firmadas por angústias e ansiedades, então não teremos escolhido uma causa significativa para tal efeito e sim apenas uma que parecesse remédio definitivo para nossa dor.
Liberdade de Escolha
Diante da total liberdade de escolha, qualquer oportunidade que apareça merece avaliação atenta e minuciosa, pois um sim pode se mostrar apenas simplório alívio por cessar um ciclo de dor.
Porque existem oportunidades que honram nossa evolução e existem oportunidades que se mascaram de cura mas que reforçam a mesma dor de sempre. Por isso, acredito que olhar significativamente as causas me parece mais valioso do que olhar apenas os efeitos de uma escolha.
Se minha escolha não reforça ciclos de dor, provavelmente ela é mesmo o melhor para mim.
No entanto, entender se trata-se mesmo de algo que honra nossa evolução ou trata-se apenas de ilusão dignificante demanda retirar camadas e mais camadas de crenças limitantes e no meio das urgências humanas, costumeiramente, isso acaba se tornando um processo bem mais demorado e difícil para identificarmos com clareza imediata e serenidade.
Nem tudo o que parece ser um encerramento de dor realmente não reforça essa dor, pois o que parece muito certo pode se mostrar a fundo uma imensa mentira contada a nós mesmos e por isso mesmo é que a oportunidade que brota pode ser apenas teste para medir a força de nosso discernimento após um ciclo de dor.
Nesse caso, essa capacidade de negar o sim quando ele finalmente aparece demonstra que realmente absorvemos o aprendizado, visto que dizer não significa também estar consciente daquilo o que não nos serve mais.
Resumindo, as vezes o caminho se abre e você tem a chance de dizer sim para o que mais quer, mas caso perceba que esse sim significa colocar no lixo tudo o que você teve que passar para evoluir, então percebe que finalmente aprendeu a discernir o que é melhor para você e o que não é.
Por isso, nem sempre o que parece curar as nossas dores é o que merecemos, as vezes é somente oportunidade para reconhecermos finalmente o que verdadeiramente seria a nossa cura.
Objetivamente, fazer sempre a mesma coisa traz sempre o mesmo resultado e fazer diferente aquilo o que estamos acostumados a fazer sempre do mesmo jeito é que abre portas para o nascimento de novas versões – cabe a cada um abrir essa porta para si ou não.
A vida é domínio, não controle.
Toda boa colheita demora para crescer, precisa de zelo e paciência.
Quando queremos a todo custo proteger nossa plantação de tudo acabamos comprometendo gravemente outras estruturas no processo e escolhemos isso porque não temos tempo, porque queremos mais e assim por diante. No entanto, sempre haverá formas mais suaves e saudáveis para se garantir a mesma colheita, respeitando os seus ciclos e a função de cada um dos elementos envolvidos nesse processo de maturação que sempre é tão bonito ao fim da experiência.
Assim é nossa vida também.
É preciso olhar atentamente para a motivação e seu real significado do mesmo modo que se olha para o que se busca ser, viver ou ter. Esse olhar reflexivo faz parte do se conhecer perante a si mesmo e é a partir disso que vem o domínio de nossa própria vida e não o controlar ela, pois ninguém controla nada nessa existência.
Uma forma de compreender isso é observar os movimentos da natureza, pois geralmente carregam grandes ensinamentos para nossas vidas e essa é uma prática que aprecio muito fazer todos os dias, sempre me surpreendo com as mensagens que costumam se mostrar muito simbólicas e assertivas em momentos extremamente cruciais para mim, mas enfim.
Observe o voo dos pássaros no céu e o navegar dos barcos ao mar.
Os pássaros sempre sabem aonde querem ir mas não é a todo momento que eles assumem o controle do seu vôo. Há momentos em que ajustam a direção que desejam para logo em seguida se deixarem mover ao bel prazer do vento, porém sempre presentes e conscientes de seu rumo.
O pássaro domina a própria direção mas também sabe o momento de se deixar levar pelos ventos, apreciando o passeio e a paz e a liberdade de seu flutuar. Do mesmo modo é com os barcos quando estão ao mar, pois quem o conduz não se deixa à mercê das marés e dos ventos porque sabe o momento de se direcionar e também o de se permitir apenas a navegar sob o balanço das águas e se deixar levar pela força dos ventos.
Nada disso é sobre controlar. É sobre dominar os nossos caminhos porque dominamos a nós mesmos e o destino é sempre o mesmo fim para quem sabe exatamente aonde quer chegar.
As escolhas são propósitos
É preciso entender que uma escolha nunca é assinar uma sentença de morte, pois o mundo está sempre em constante movimento até mesmo quando parece parado. Portanto, sempre haverão oportunidades desde que estejamos abertos e dispostos a encontrá-las, pois se nos acomodamos e desistimos apenas porque escolhemos um ou outro caminho por um breve período de tempo, então certamente será como se tivéssemos dito um adeus a nós mesmos e nossas outras versões.
Ter discernimento e sabedoria para sermos bons condutores de nossa própria vida é tudo o que precisamos num primeiro momento, pois o medo faz parte do processo mas pautar nossas escolhas apenas sob o viés da segurança também é apenas ilusão – já que nada realmente é seguro.
Então, vivemos devagar um dia de cada vez, não importa o barulho que todos façam nem a aceleração que é comum ao mundo. Vivemos um dia de cada vez com propósito e esse propósito não são somente as coisas grandiosas, mas sim viver cada dia atribuindo um significado consciente a todas as nossas ações, pensamentos, escolhas e assim por diante.
Escolha porque você domina a sua vida, não porque você acha que a controla.
“No ferro que dobra, a vontade é paz (..)
O ferro não teme o fogo, nem a alma teme o chão.
Ogum é o passo que segue, mesmo em meio à escuridão.
Ogunhê, Ogum!”
(Tambor de Fé – O Ferro e a Fé)
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