Viver a Tempo


Abro a porta da frente.

Uma brisa suave e gélida bate em meu rosto fazendo o meu corpo todo estremecer.

Ao redor, apenas mato e cavalos no pasto.

Respiro fundo tentando captar toda a essência da mãe natureza 

E agradeço por ter os olhos abertos por mais um dia. 

Bem ao longe, o sol se põe.

Ouço o apito da chaleira me acordando do que até pareceu ser um sonho distante. 

Corro até a cozinha, o som das chinelas arrastando no chão 

E ecoando pela sala enquanto vou atravessando. 

É bem solitária essa vida.

Mas há uma paz nessa solidão que faz com que a minha tristeza

Seja muito mais do que apenas uma triste canção. 

Sou feliz com essa casinha de campo, minhas galinhas, minhas verduras. 

Que sensação agradável. 

O cheiro do café invade a casa, aquece mais do que cobertor. 

Dirijo-me à varanda e sento na velha cadeira de balanço que dá vista para o lago. 

Pensamentos nostálgicos me invadem e um sorriso leve, quase um suspiro, transparece em meus lábios. 

Eu era jovem. Minha pele era outra. Porém, os sonhos permaneceram os mesmos. 

Tantos erros cometi. 

Os caminhos mudaram, mas o destino talvez tivesse, ainda assim, sido o mesmo. 

Tomo um gole do meu café e como algumas bolachas de sal e água. 

Meus cigarros não me levaram a nada, apenas atenuaram a dor e a insatisfação. 

A vida era estressante e a minha saúde nunca permanece a mesma. 

Uma lágrima escorre.

Surpreendo-me. – Não tive filhos, nem marido. 

Atirei-me em muitos poços e também saí de todos eles. 

Mas estou velha. 

Meu amor por ele, sempre o mesmo. 

Meus lábios logo perderão a cor, meu corpo não mais será quente. 

Secarei. 

Poderia ele, tão cedo, visto isso acontecendo? 

Poderia ele ter pensado nessa vidinha calma ao fim de tudo? 

Um sopro gelado passa por meus ouvidos. 

É Ela.

Veio me buscar. 

Respiro o ar puro mais uma vez, tomo o resto do meu café. 

Estou pronta, depois de ter vivido tão amedrontada. 

Sou sábia de “todas” as coisas, nada mais tenho que fazer aqui. 

Fecho os olhos com ternura, chamo-a.

Uma certa leveza. 

A tempestade me carrega e num repente se amansa.

Mil cheiros de perfumes me envolvem.

Encantam-me. 

E no fim, um abraço doce e afável como o mundo inteiro em si. 

Meu corpo relaxa, adormece na cadeira. 

Nada vi, apenas senti. 

Tudo foi essência – me transportou para algum lugar além de mim. 

Algum lugar aonde corpos não existem, apenas a consciência. 

Sei que apenas uma coisa desejei. 

Poder, na próxima vida, encontrar ele de novo.


Blog Literário Alternativo escrito por Moxferia e que traz publicações relacionadas a resenhas literárias e críticas, recomendações de livros, estudos sobre espiritualidade e magia, reflexões filosóficas e devaneios, poemas autorais, textos e artigos sobre vampiros e outras criaturas, cinema, arte, música e jogos relacionados.

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Moxferia

Sol em Áries, Lua e Ascendente em Virgem, Lilith em Libra e Vênus em Peixes – tenho 37 anos, sou formada em Design Gráfico e mãe de nove gatos super amorosos.

Sou forjada nas emoções, tenho uma queda sinistra pelo universo da mente humana e por isso considero-me uma filosofeira de plantão, metida a escritora e com aquele olhar mais espiritualizado para os detalhes ocultos e obscuros.

Amo escrever e sou apaixonada por livros, poesia, arte, cinema, espiritualidade, coisas antigas e exóticas. 

"The great art of life is sensation, to feel we exist, even in pain."

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