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A Percepção do Self Através do Eu Ferido


Por mais que o conforto traga uma sensação de segurança ou uma percepção do self mais agradável a nossos olhos, é primordial prestarmos atenção ao estágio do encontrar-se acomodado demais, especialmente se percebemos que tal ‘estado de estar’ consome nossa vitalidade enquanto permitimos a proliferação de uma certa apatia aguda que nos distancia do mundo e de nós mesmos.

Muitas vezes, essas situações constituem algo um pouco mais profundo e simbólico como, por exemplo, um certo desequilíbrio do elemento fogo interior que está presente em tudo no universo e que proporciona vitalidade, motivação para prosseguir, realizar e para transformar.

Desse modo, buscar compreender as raízes daquilo o que se manifesta em nós e a partir de nós, possibilita alcançar um entendimento mais completo sobre quem somos diante de tudo o que nos cerca.

 

Percepção Manifestada do Eu Ferido

Compreender o que acontece dentro de nós não é uma tarefa muito fácil ou mesmo simples, pois é preciso ter disposição e curiosidade para navegar nessa descida até as profundezas de si mesmo.

Remover as máscaras, as ilusões e as crenças limitantes é um processo extremamente doloroso para o ser humano, já que é natural que estejamos sempre apegados ao que amacia as feridas da alma e essa evitação natural a tudo aquilo o que nos machuca só nos coloca numa situação em que isso assume uma posição quase que subliminar, para no fim de tudo apenas tornar a expressar um sofrimento ainda maior.

Assim, acreditamos fortemente que sabemos quem somos nas diversas situações da vida, nos apegamos às nossas vaidades e nos entupimos de noções limitadas sobre um self que constantemente assume variadas versões de si mesmo ao longo da jornada da existência.

A realidade é que por trás de cada passo dado desapercebido, existe costumeiramente um Eu ferido que deseja amargamente um pouco mais de segurança e presença, enquanto ao mesmo tempo está em busca de um entendimento de si – mesmo que não se faça tão lúcido e visível assim sob o olhar.

A percepção de quem somos sempre parecerá ser sobre aquilo o que manifestamos e em certos pontos isso parece bastante óbvio. No entanto, é possível compreender realmente a totalidade de quem somos apenas a partir de nossa própria percepção, considerando que o entendimento dela é definido pelos limites de nossa experiência e emoção?

Certamente, ela parece ser “tudo” o que temos para definir algum senso de verdade, clareza e entendimento, mas provavelmente é limitada apenas àquilo o que sentimos e experienciamos e muito pouco sobre o invisível ou o desconhecido – dois detalhes que fazem toda a diferença.

Até mesmo o que não se conhece ou não se vê acaba sendo definido por um senso de conhecimento constante ou absoluto, o que leva ao seguinte questionamento – como posso perceber algo como sendo verdade ou real, a partir daquilo o que não sei e também não enxergo?

Provavelmente, a resposta seria através das experiências e das sensações, e bem, é exatamente esse ponto de reflexão que trago para o pensamento da percepção de quem somos, especialmente considerando que em nosso mundo costumamos tecer verdades até sobre o que não conhecemos tampouco vimos.

E nesse sentido, talvez a frase mais verdadeira já expressa tenha sido aquela em que Sócrates nos agraciou no passado, mas que o mundo adora falar quando não faz questão de entender mais nada.

Só sei que nada sei - sócrates; frases de sócrates

 

Percepção Imprecisa e Incompleta

Penso que a aceitação da própria limitação e ignorância é a máxima da compreensão de nossa própria totalidade, pois é somente quando nos desfazemos das roupagens que nos tornam especiais demais aos nossos olhos é que nos damos conta de que essa plenitude não tem medida.

Quem somos não é definido apenas pelo o quê manifestamos, mas trata-se também de uma leveza ao transitar livremente entre as nossas diversas versões enquanto respeitamos os nossos ciclos.

Esse Eu Ferido se manifestaria através de nossa percepção imprecisa e incompleta de si mesmos e a partir daquilo o que foi negligenciado. Por exemplo, se tudo o que percebemos são apenas vaidades, então provavelmente a verdade que experienciamos, sentimos e negamos, revelaria uma insegurança tremenda sobre alguma coisa. Eu “manifesto” vaidade, mas no fundo é apenas insegurança.

Portanto, essa vaidade não compreenderia necessariamente aquilo o que sou, mas sim apenas aquilo o que defino como verdade e que geralmente surge das profundezas de um senso ilusório de si mesma, cuja origem estaria nesse self ferido que encontra-se mascarado por confusão de juízos.

Ao ficarmos nus diante de nosso próprio espelho interior, percebemos que estamos demasiadamente assustados com aquilo o que desconhecemos. Preferimos acreditar em nossas próprias mentiras e aquilo o que precisa de transformação antes necessitaria passar por uma fase de aceitação dolorosa e que as pessoas geralmente estão indispostas a remexer. Transformar o mindset daria trabalho demais.

Esses pedaços que escolhemos mostrar dão pistas sobre um universo interior e essa manifestação não necessariamente chegaria ao patamar de nos definir. Se assim o fosse, quaisquer doenças mentais, por exemplo, seriam justificativas para dizer quem somos quando na verdade se trata apenas de uma condição.

Nesse contexto do exemplo, a manifestação de uma condição não definiria um indivíduo e sim apenas a sua limitação diante de uma espectro considerável de fatores e situações.

Ora, por que sobre o self tal compreensão seria tão diferente assim? A mim parece fazer mais sentido que a totalidade dele resida naquilo o que, ironicamente, nos faça sentir confortáveis e fluindo com leveza, não apenas interessados, encantados ou satisfeitos.

Não faz sentido existir, obrigatoriamente, uma razão diretamente proporcional entre a manifestação de algo e a sua verdade interior. Essa totalidade seria o que vejo mais como uma das formas de liberdade e conversa bastante com outras situações da vida, como por exemplo, o nosso poder pessoal, as relações amorosas e inclusive sobre as nossas escolhas profissionais.

Escolher um relacionamento com alguém que não se conecta em nada com o que reside de verdade dentro de nós, falaria muito razoavelmente sobre uma projeção de algo que não foi curado internamente ou que precisa de aprendizado e natural evolução. Isso não fala se alguém é ideal para você ou não, até mesmo porque isso não existe, já que a definição do que é melhor para nós depende também de nossa própria visão sobre aquilo o que queremos, buscamos, desejamos e achamos que merecemos.

Assim, a manifestação dos desejos não implica o real desejo.

Ele pode apenas indicar que manifestamos e atraímos exatamente aquilo o que desejamos curar, no entanto, por falta de consciência sobre nossas próprias limitações e ignorâncias, acabamos acreditando que essa manifestação seria o que de fato desejamos quando na verdade é o contrário, ou, simplesmente algo que se precisa trabalhar melhor internamente naquele momento de nossas vidas.

Esse caráter traz novamente a ideia do confortável que tangencia também a nuance do desequilíbrio, conforme abordado no início desse texto. Por isso mesmo, é faca de dois gumes e imensa ironia.

Um planejamento muito meticuloso do universo e da vida para nos ensinar a (re)encontrar o centro.

 

Comportamento de Subproduto

A busca de uma clareza absoluta como apenas uma categorização qualquer de um mero livro em nossa estante, pode ter um efeito destrutivo se só o que enxergarmos for sob o viés da experiência e das sensações. Nós sentimos muitas coisas todos os dias e esses sentimentos mudam grotescamente a cada experiência nova ou revisitada. Isso por si só já não nos diria muito?

Um bom exemplo para ilustrar é observar a própria necessidade de pertencimento a partir dos interesses e preferências. Num mundo de rótulos, nos comportamos como se fôssemos subprodutos de produtos e que também precisam de etiquetas de valor para serem expostos nas vitrines da sociedade.

Ora, mas isso não é o cúmulo da limitação, do aprisionamento e talvez de uma enorme falta de confiança? Minha essência se invalida acaso eu não esteja sob o olhar inquisitivo do outro?

As pessoas são o que vestem ou não? Comportamento de subproduto; Consciência. Valor próprio.

Mesmo os excluídos, que acreditam serem excusos de tal realidade, no fundo andam à procura de um lugar adequado para colocarem suas próprias etiquetas diante do existir. Se uma alma não consegue reconhecer outra apenas por sua singela constituição, então a única saída satisfatória seria realmente colocar em si uma etiqueta de valor para que possa finalmente existir.

O valor de uma alma e de um espírito não precisam de medida social tampouco adesivos.

Se dizer quem somos necessita apenas da definição daquilo o que manifestamos, experienciamos e sentimos, então qualquer manipulação de elementos dentro desse mesmo espectro nos faria ilusoriamente alcançar essa clareza absoluta quanto ao nosso lugar de pertencimento.

“Eu sou assim, porque gosto disso e daquilo, porque manifesto isso e aquilo, porque senti aqui e acolá”, então, finalmente SINTO e PENSO que pertenço, tudo está certo e esta é a verdade.

Ora, mas essa não seria talvez uma baita construção mental bastante capciosa? Eu duvido que sejamos apenas o fruto de tal definição. Se for assim, então todos somos alguma marca que já existe no mercado.

 

Mudanças, Negação e a Liberdade da Leveza

Quanto maior for a ferida, mais profundamente ela provavelmente estará e quanto mais fundo avançamos, ainda mais dolorosa fica essa descoberta.

Infelizmente, boa parte das pessoas não deseja realmente sair dessa zona de conforto e a negação constante acaba moldando uma parte muito importante de quem são, por isso não me parece nada a toa que muitos se sintam cada vez mais infelizes ao perceberem que não conseguem voltar atrás.

Nesse ponto, o problema não é ser quem se é no momento, mas a dor ocasionada pela não aceitação daquilo o que já foi perdido. O que foi perdido, dá lugar a algo que não se reconhece e o fato de ser desconhecido causa imensa angústia, como se algo estivesse totalmente errado ou fora de lugar.

É basicamente vivenciar o luto de nossa própria morte, porém ainda em vida.

Essa angústia faz com que passemos a renegar as mudanças, que podem ser várias no âmbito do self, e tal rejeição se torna mais uma nova forma de angústia que nos distancia cada vez mais da real essência de nossa verdade interior. De repente, se transforma em algo muito maior e termina distorcendo aquilo o que não deveria ter sido distorcido em momento algum.

Por isso a pessoa mais se perde do que se acha e tudo passa a ser um sofrimento que leva a outro e a outro e a outro e não tem mais fim. No entanto, não deixa de ser uma nova versão que pode sempre ser lapidada com muito carinho e gentileza, porque brota uma vez mais como oportunidade para a autodescoberta.

Essas mudanças trazidas pelos ventos assinam em nosso espírito um novo renascer e alimentam constantemente esse fogo interior que nos move e direciona todos os dias um pouquinho mais.

Sendo assim, totalidade é simplesmente não ser nada, porque já somos tudo.

 

Liberdade da Leveza

É na leveza e na liberdade do autoconhecimento e da intuição que abrimos caminho para descobrir nossa verdade interior, despidos das roupagens da vaidade e das ilusões, posto que o real sentido emerge daquilo o que já somos e que só acha via de manifestar quando se encontra liberto da busca pelo conforto de pertencer e também o de nunca mais estar só. Até lá, não sabemos nada e achamos que sabemos tudo.

Essa conclusão sobre a totalidade pode até soar tendenciosa ao pensamento negativista num primeiro momento e eu simplesmente amo como ela pode assumir esse aspecto bem diante dos meus olhos ao transitar levemente entre os campos minados invisíveis sem se fazer necessária ou mesmo urgente.

Mas veja que ela apenas nos direciona a compreender que já temos tudo o que precisamos dentro de nós mesmos – seja para ser, estar ou alcançar e nenhuma roupagem mudará isso tampouco nosso lugar de pertencimento. Buscar compreender e entender é aceitável, pois o autoconhecimento é necessário.

No entanto, se a busca pela resposta for na intenção de se colocar uma etiqueta de valor, então não me parece que seja caminho muito saudável e nem mesmo dotado de tanta clareza assim.

É possível que essa busca inconsciente acabe causando prejuízos enormes ao indivíduo, sendo que certas escolhas podem levar a caminhos sem volta ou no mínimo bastante complicados para encerrar.

 

O Caminho do Equilíbrio

Por fim, se torna inegável que se guiar apenas pelo viés dos sentimentos e das experiências, pode causar enganos e desenganos com uma destreza absurda e isso acabar comprometendo uma grande parcela das nossas vidas. O zelo e a atenção na tratativa dessas situações é necessário para que seja possível mitigar sofrimentos desnecessários ou muito prolongados, evitando assim grandes ou novos traumas.

Sempre me pareceu que o caminho do meio, do equilíbrio, é sem sombra de dúvidas o melhor para manter tudo fluindo de forma mais leve e natural. Inclusive, isso também traz a tona os quatro elementos, já que o desequilíbrio deles faz com que certos comportamentos se proliferem dentro de nós, e nesse sentido, a comodidade teria muito a ver se fizermos uma relação com o que já foi dito bem no início.

O Caminho do Equilíbrio, o caminho do meio, budismo, filosofia budista.

Quando nos tornamos acomodados demais, deixamos de alimentar a energia do elemento fogo dentro de nós e isso nos torna mais apáticos diante das coisas. É uma zona de conforto, mas que não existe para nos consumir e sim para nos guiar de volta ao equilíbrio, de volta para o nosso centro.

Se a pessoa está muito acomodada em algo, ela está elevando essa mesma característica constantemente e tudo o que é em excesso costuma não ser muito saudável. Dessa forma, a comodidade vem ensinar o caminho de volta para a força concretizadora e ativadora que carregamos – aquela energia que move, que transforma, que realiza. E para mim, o autoconhecimento também traz essa força ativadora quando buscamos nos compreender melhor diante das situações, pois isso nos impulsiona a continuar evoluindo a fim de nos tornarmos uma versão mais aprimorada de quem já somos no fundo desde sempre.

As respostas que podem surgir nem sempre nos deixam contentes, pois o que mais negamos tende a ser justamente o aspecto que mais precisa de atenção. No entanto, ao fim é muito gratificante e edificante.

 

Respeite seus Ciclos

Sabermos reconhecer os nossos limites, nos conhecermos a fundo e termos disposição para sermos curiosos diante do nosso self é fundamental, pois assim temos a oportunidade de poder viver momentos da maneira mais plena e significativa possível, e também valorizando a preciosidade do tempo que temos.

É buscando o equilíbrio, respeitando os próprios ciclos e também aceitando as nossas novas versões que desejam nascer ou renascer é, então, que vamos aprendendo pouco a pouco sobre quem somos de verdade.

A intuição e o autoconhecimento sempre são os melhores guias em quaisquer das estradas e os resultados revelados nos preenchem ainda mais de vitalidade e presença. Portanto essa busca nunca foi exatamente bem necessária, porque as respostas sempre estiveram ali o tempo todo dentro de nós.

Ora, isso não é o suprassumo da liberdade e da satisfação?

Blog Literário Alternativo escrito por Moxferia e que traz publicações relacionadas a resenhas literárias e críticas, recomendações de livros, estudos sobre espiritualidade e magia, reflexões filosóficas e devaneios, poemas autorais, textos e artigos sobre vampiros e outras criaturas, cinema, arte, música e jogos relacionados.

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Moxferia

Sol em Áries, Lua e Ascendente em Virgem, Lilith em Libra e Vênus em Peixes – tenho 37 anos, sou formada em Design Gráfico e mãe de nove gatos super amorosos.

Sou forjada nas emoções, tenho uma queda sinistra pelo universo da mente humana e por isso considero-me uma filosofeira de plantão, metida a escritora e com aquele olhar mais espiritualizado para os detalhes ocultos e obscuros.

Amo escrever e sou apaixonada por livros, poesia, arte, cinema, espiritualidade, coisas antigas e exóticas. 

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