Houve uma época em que o espelho refletia
Apenas um alguém entristecido pelas cicatrizes do tempo.
Um olhar repleto de uma utópica esperança, escondida,
Mas que ainda parecia segurar-se em raízes profundas.
Nos dias atuais, a figura que antes olhava ao espelho,
Fulminada pelo desespero dos infortúnios,
Agora dá lugar a uma sombra maliciosa que desampara
Na rigidez pálida da morte trazida ao inferno mundano.
Não mais reconheço esta que olha-me de volta, e,
Sequer ouso sustentar-lhe tal penetrante olhar.
Uma coisa pavorosa de se ver, dói-me a alma ao encarar.
É abismo tão profundo que não se enxerga mais,
Puro frio na espinha dorsal que só se apercebe
Porque vibra tão incomum e descomunal.
Seco abraço incisivo, sepultador de vidas,
Que veste a armadura dos mortos-vivos
Pairando, assim, no semblante dos que lhe miram,
Como a própria sombra da morte encarnada.
Não se sabe mais onde está,
Não se sabe mais o caminho de voltar.
Só segue – dura, seca e letal.
Buscando em si, a vitalidade que,
Outrora – sem dó e nem piedade,
Medíocres de fermentos mortais e
Cheios do rirem-se enganosos ao léu,
Um dia ousaram tentar-lhe roubar.



