Já que a Netflix decidiu trazer a maravilhosíssima série The Vampire Diaries novamente e dessa vez de forma completa com as suas 8 temporadas, aproveitei para voltar a assistir essa delícia pela segunda vez, o que trouxe à vida essa belíssima Resenha Crítica que vai além do que talvez o que se possa esperar dela.
Ela permeia mais o âmbito da primeira temporada, mas vale para toda a série de certo modo e já alerto para spoilers. Então, não se sintam ofendidos, pois já estou de cara avisando.
Será um pouco longo, mas tenho certeza de que valerá bastante a pena e talvez até mude a maneira como a série poderá ser percebida daqui para frente.
Começarei fazendo algumas breves contextualizações para depois, então, começar a falar dos aspectos da série que realmente são relevantes para essa Resenha.
A Poética da Sombra nas entrelinhas do Arcano I do Tarot
Seria um pouco absurdo da minha parte fugir de certa peculiaridade, por isso desejo começar esse tópico de forma meio poética – o que faz jus ao tema nesse momento específico.
De forma direta, a Sombra é uma rainha sorrateira que se esconde por de trás das coisas mais plausíveis, sendo dona das justificativas perfeitas, porém se ancorando nas raízes mais assombradas para reinar.
A sombra não é o aspecto negativo como muitos podem pensar. Na verdade, ela é mais como uma guardiã de nossa essência e protege com unhas e dentes o nosso poder pessoal, a nossa potência transformadora.
Por isso, para mim, ela soa um pouco como o Arcano I do Tarot – O Mago.
De nada adianta ter todas as ferramentas ao nosso dispor se não sabemos como utilizá-las da forma adequada ou se nos falta a ciência sobre nós mesmos, a fim de sabermos como as usar.

O Mago tem todas as ferramentas ao seu dispor. Inclusive, sua maior ferramenta, além dos objetos de trabalho em si, é nada mais e nada menos do que o seu próprio conhecimento, sua intuição e sabedoria.
Cada objeto na mesa possui a sua significação, o seu sentido de existir e por vezes até o seu posicionamento indica algo muito específico em uma situação também muito específica.
Nós temos essa capacidade transformadora e orientadora também dentro de nós nas diversas fases e momentos de nossas vidas.
Temos o poder de transformar, orientar e de cocriar nossa própria realidade.
Sendo assim, diante da inconsciência de nossa própria visão a respeito de nós mesmos, passamos a atuar como se estivéssemos na energia de um Mago invertido, esbanjando um “oposto”, por assim dizer, do que em nosso íntimo podemos, naquele momento, vir a desejar.
Ficar nessa energia é muito destrutivo no âmbito do self, principalmente se ela não tiver propósito algum para estar em fluidez. Esse “oposto” não significa necessariamente algo ruim, mas sim algo a se trabalhar.
Agora, abrindo um parênteses aqui, é bom salientar que eu não entendo muito sobre o Tarot, mas senti vontade de trazer essa reflexão “analógica”, porque me pareceu fazer sentindo num primeiro momento e por essa razão, não é a minha intenção realmente explicar a carta em si.
Mas por fim, voltando ao escopo desse tópico.
Essa inconsciência ocorre de forma natural, por assim dizer, sem realmente nos darmos conta das tantas fugas internas que efetivamos. Como tudo na vida tende a ter dois lados ou até mais, essa inversão não é sempre ruim, como eu já havia dito anteriormente.
Muitas vezes ela é necessária para que possamos colocar limites e também para que possamos enxergar o verdadeiro caminho para nós.
É como se o verso e o inverso se tornassem uma sinfonia perfeita rumo ao equilíbrio de todas as coisas que nos envolvem internamente: pensamentos, sentido de ser e nossas ações.
“Ser ou não ser, eis a questão!” – Shakespeare
E é aqui que cabe muito bem a ideia da Sombra, num aspecto mais sutil, porque é a partir do momento em que a percebemos e nos lançamos em seu abismo, sem condená-la, mas sim a abraçando com gentileza, é que ela então deixa de reinar como sombra no escuro de nossas almas e passa a reinar como estrela resplandecente em nossa própria Escuridão.
Do reino dos mortos, ela passa então a ser a rainha do luar.
E na série podemos acompanhar justamente este belo desabrochar que irei discorrer nos próximos tópicos, aprofundando a Sombra sem falar especificamente dela de novo.
A Densidade Psicológica dos Personagens
Elena Gilbert é bastante hipócrita no início da primeira temporada, porém não a vejo como o tipo hipócrita arrogante, mas sim como a hipócrita vítima das próprias mentiras – o que é bem pior e mais comum.
Essa hipocrisia fica muito evidente quando a personagem entra em choque direto com o irmão mais novo, Jeremy Gilbert, que apesar de se comportar de forma extremamente imatura acaba demonstrando muito mais honestidade sobre seus próprios sentimentos do que Elena, que busca vestir a carapuça da normalidade sem deixar de se afogar na própria dor.

Ao mesmo tempo, incrivelmente, ela demonstra um certo embotamento bastante perceptível e isso acaba fazendo com que Jeremy perpetue ainda mais o próprio comportamento egoísta.
Esses rompantes de Jeremy partem de uma profunda solidão e desamparo diante da perda dos pais, mas que se ancoram, na verdade, na própria solidão e estranheza que sempre existiu dentro de si.
A perda dos pais apenas tornou possível que essas emoções, já instaladas anteriormente, encontrassem caminho para desabrochar.
Por um outro lado, mais superficial e sem ao mesmo tempo realmente ser, também não deixa de caracterizar uma forma de lutar por si no mar do desespero, afinal de contas, enquanto ele puder sentir essa perda é como se pudesse também manter aquilo o que já conhece sobre si.
E esse é o outro aspecto muito interessante dessa situação, pois é sempre cômodo lidar com aquilo o que já conhecemos, mas nos aterroriza, inconscientemente, o enfrentamento real de nossos verdadeiros sentimentos e pensamentos, de nossas reais motivações.
Isso acaba nos tornando prisioneiros de um ciclo vicioso que perpetua apenas mais dor e sofrimento e nos mantém afixados no âmbito daquilo o que já conhecemos.
Portanto, é sempre mais fácil de lidar com o que se mostra na superfície.
Do mesmo modo que em Elena vemos essa nítida hipocrisia, é possível observar o mesmo no sentimento de Jeremy, já que a motivação principal para a proporção de seus sentimentos parece residir no próprio vazio existente e não exatamente na perda dos pais.
Do mesmo modo que ela, Jeremy mente também para si quando usa essa perda para fazer o lado sombrio de si mesmo vir a tona – aquele que deseja que a sua dor e vazio sejam vistos.
Os dois tem maneiras distintas de lidar com o mesmo sentimento – enquanto ele quer sentir tudo, Elena não quer sentir absolutamente nada. Enquanto Jeremy se atira ao abismo de si mesmo, Elena preserva expectativas e ilusões ao esconder de si as verdades que mais doem em sua alma – a culpa.

Com isso dito, fica nítido que cada vez que Elena faz um apontamento crítico sobre o comportamento de Jeremy, cobrando dele coisas que não tem o direito de cobrar, mais hipócrita ainda ela se torna diante de nossos olhos. É a pessoa que não encara os próprios sentimentos exigindo absurdos da pessoa que “encara” os seus e o dos outros mas com excessos.
Jeremy vê a hipocrisia e isso é bem claro, mas será que enxerga a sua própria?
Assim, é um quadro evolutivo muito bonito de ser acompanhado nesses dois personagens, já que muitas das coisas que não podem ser controladas em razão de não serem posses suas, acabam lhes forçando a confrontar sempre algo muito doloroso dentro de si.
Todo Mundo “In the Land of Confusion“
No meu ponto de vista, a série começa a tomar forma mesmo, não quando Elena se afunda em inseguranças ao perceber que se envolve com alguém do qual ela não sabe absolutamente nada, mas sim, quando começa a sentir um imenso incômodo ao notar o rumo desenfreado que sua vida passa a tomar e isso acaba fazendo com que ela se torne praticamente uma expectadora dos acontecimentos que surgem em sua vida, ao passo que a realidade dos outros começa a engolir a sua própria – causando um enorme sufocamento existencial.
Elena não consegue sustentar a mesma postura evasiva diante das próprias emoções enquanto as situações vão se remendando uma após a outra, culminando que termine sempre empurrada a tomar alguma decisão sem que a deseje – não sobre o que fazer, mas sobre si mesma.
Vemos uma espécie de Elena no modo ‘confusão aterradora’ que provoca uma debanda vigorosa na tentativa de a todo custo ressignificar a própria realidade.
É, de fato, uma avalanche de emoções.
Tudo parece sair do controle a todo instante e principalmente para Stefan, que ao dominar a arte do mentir para si, termina por não saber nem mesmo quem é.

A tragédia de Vicky parece finalmente acordá-los perante o choque da realidade e esse triste momento é uma demonstração clara da vulnerabilidade dos personagens envolvidos, fazendo com que Vicky se torne uma espécie de elo conectivo entre si e abrindo portas pela primeira vez para que seus reais sentimentos pudessem vir a tona sem pedir muita licença.
Jeremy finalmente transborda suas feridas de forma que Elena passa a entender que a solidão do irmão é como a dela, cheia de dúvidas e culpas por todos ao seu redor morrerem.
Infelizmente, ele não se dá conta no seu egoísmo desproposital de que ainda lhe resta pessoas importantes a valorizar e enquanto isso, Elena é posta de frente diante de um duplo sentimento de culpa – o primeiro pela morte dos pais e o segundo por se sentir responsável pelo sofrimento do irmão diante de mais uma morte.
Diante de tudo, Elena parece dar mil passos atrás e assumir uma postura de auto proteção que se expande como se ela fosse a chave transformadora para a realidade de todos que ama.
O fato é que nada disso seria responsabilidade de Elena, mas ela parece a todo instante querer assumir um papel de mãe que não lhe cabe, situação esta que parece fazer até com que sua tia Jenna não tenha sequer espaço para entender o próprio papel na situação toda – quem dirá o direito de sentir a perda da própria irmã.
Jenna também sente culpa, por não ser a mãe que eles precisavam e nem dar conta do recado.
Já Stefan, parece ter um lapso de entendimento, por empatia ou por culpa, sobre a influência de seus próprios sentimentos egoístas no sofrimento de Elena e Jeremy, o que traz em comboio também a culpa pela morte de seu tio Zach e até mesmo o envolvimento de Caroline.
Além disso, fica bastante evidente que Stefan não aceita bem a própria impotência para realizar a vontade de Elena em apagar a memória dos acontecimentos recentes com Jeremy em relação a Vicky, aparentando ter dificuldades de encarar a realidade que ele mesmo escolheu ao se impor uma limitação que na verdade não havia necessidade alguma de existir.
Stefan fez uma escolha sem que isso realmente fosse uma escolha a ser feita e essa situação fica óbvia com a vinda de Lexi, sua melhor amiga, que não deixa de consumir sangue humano – sua forma de alimentação primordial – em razão de ser o que é.
Pelo contrário, ela faz isso de forma leve, elegante e educada.
E finalmente por fim, quando achamos que Stefan vai aceitar a sua parcela de responsabilidade por suas ações, ele então se volta para Damon e o culpa por tudo – como se Damon fosse sempre o problema de sua vida, quando, na verdade, o problema reside nele e naquilo o que ele não deseja admitir a si mesmo.
A Ilusão de Amar entre Stefan Salvatore e Elena Gilbert
Numa das primeiras cenas da série, quando vemos Elena praticamente proferindo mantras positivos em seu diário numa tentativa bastante realista de lidar com suas dores e superar seus problemas, é interessante reparar que na cena anterior, enquanto ela escreve em seu diário sobre como ser uma nova pessoa seria o único jeito de conseguir seguir em frente, vemos Stefan auto afirmando basicamente a mesma coisa – um sentir ‘não ter escolha’ ao voltar para a cidade que diz ‘não dever retornar’.
Stefan e Elena são como almas gêmeas destinadas a se encontrarem, de uma forma ou de outra, sendo que um precisa do outro para evoluir, reconectar-se consigo mesmo e com o mundo – para superar suas realidades e o que não conseguem mudar.
Um precisa do outro, mas não necessariamente o caminho terminará em vias de união, já que muitas vezes pessoas passam em nossas vidas para nos ensinarem e ajudarem a estarmos prontos para aquilo o que efetivamente nós devemos trilhar ou para o que e quem deve estar de verdade em nossas vidas.
Os sentimentos de Stefan foram verdadeiros no âmbito do afeto, mas ele não ama Elena de verdade, ele ama a si mesmo e a sua própria dor. Elena apenas o faz esquecer daquilo o que o mantém vivo, mas ainda precisa dela como alguém precisaria de uma muleta para andar.
Elena é exatamente igual, porque encontrou em Stefan essa mesma muleta para se sustentar e começar a nova vida que acreditava ser a vida que deveria viver dali em diante.
Mas Stefan é sua muleta para recomeçar, lidar com as perdas ou fugir do que isso significa?
No fundo, a carência se torna uma dependência emocional que faz acreditar que aquilo se trata de amor, quando na verdade os coloca em risco. Stefan é como a lembrança da morte e isso é muito demonstrado na cena do cemitério quando ela aparece correndo assustada e acaba caindo no chão e se machucando, mesmo que a fuga fosse dos corvos de Damon.
Porém, antes disso acontecer, Elena estava justamente escrevendo em seu diário num tom de resignação sobre as inúmeras vezes em que disse estar bem, mas que isso não era verdade e que no fim das contas, isso também não importava porque ninguém estava nem aí para isso.
O aparecimento de Stefan logo depois, nessa situação toda, se conecta com Elena como se fosse uma espécie de salvação ou de uma luz no fim do túnel e num momento bastante peculiar.
Afinal, alguém se importa e esses são dois pontos de vista bem interessantes de se observar.

Talvez para Elena, Stefan cause o mesmo efeito que as drogas que Jeremy usa, já que ambos, na tentativa de superar e seguir em frente, rumam para a própria Escuridão de maneiras distintas.
Tanto Stefan quanto Elena escondem suas emoções e tentam resistir àquilo o que lhes empurra para o abismo de si mesmos, mas ainda assim de alguma forma essa escolha continua os fazendo rumar exatamente para esse mesmo lugar.
Elena se apegou a Stefan do mesmo modo que Jeremy se apegou a Vicky, mas penso que amor é muito diferente de apego e aqui um enorme ‘BOOM!’ acontece.
Stefan parece ser um príncipe encantado para Elena, tudo parece bastante natural e certo, porém, ele esconde um certo lado obsessivo, abusivo e até um pouco tóxico – mesmo que não seja por maldade. Tudo sempre justificado pelas próprias emoções, as quais, silenciosamente, ele vai se permitindo consumir aos poucos.
Elena busca sempre ignorar a estranheza de certas situações que presencia, como se no fundo se obrigasse a ver as coisas do modo que Stefan postula, simplesmente por uma noção inconsciente da conexão estabelecida pelos dois através do diário, numa compreensão mútua.
Jeremy Gilbert e a Solidão Enraizada
O imenso vazio de Jeremy e a solidão que nada preenche, como já falei anteriormente, talvez tenha sido potencializado pela morte dos pais.
O fato é que ele tenta se apegar a algo ou alguém para aplacar esse sentimento, mas nada parece se firmar e isso o faz se sentir mais desolado e perdido do que antes.
É como se para ele não houvesse esperança, como se tudo fosse esse silêncio ensurdecedor que existe dentro de si e que tenta se fazer transparecer através das suas explosões de temperamento e maus comportamentos.
Ele quer chamar a atenção mesmo sem gostar da atenção que recebe e no fim tudo o que as pessoas dão não passam de críticas e definição de quem ele é ou deixa de ser.
Uma solidão tremenda, realmente.
Vicky Donovan – A Imperadora da Evasão
Vicky é tão quebrada que não sabe diferenciar quem gosta dela com a melhor das intenções e quem só quer usá-la no fim das contas. No fundo, ela parece não se importar com o resultado disso e em certo momento até se incomoda, mas esse incômodo na verdade parece ser mais uma autodefesa e bastante precária.
Até morrer nas mãos de Damon e começar a passar pelo processo de transição, Vicky finalmente consegue enxergar Jeremy, o que deseja e como realmente se sente.
Quando tudo muda, Vicky experimenta uma libertação que faz com que ela se sinta poderosa diante de todas as coisas que uma vez já a fizeram desabar. Nada disso realmente passa a fazer alguma diferença e seu frenesi declara de forma bastante inocente que a única coisa que a importa é o que ela deseja para si e como vai gerenciar meios para alcançar isso.
É possível perceber o aflorar do seu verdadeiro self nesse momento, que na verdade se trata de uma pessoa doce, pura e bastante simplória diante do amor e das próprias vontades.
Tudo o que antes vigorava, quer de maneira escondida ou não, agora se torna muito maior e mais forte do que antes. Se todo o seu caráter revolto se intensifica, também a sua personalidade doce e ao mesmo tempo luxuriosa.
Vicky é como uma flor delicada e frágil que pende somente para o amor e para as paixões, porém, um tanto quanto coxa e bastante incompreendida.
A cena na qual vemos a sua imensa realização sobre o quanto gosta do fato de Jeremy a fazer se sentir plena e completa diante dos próprios desejos e expectativas é algo realmente cativante, e creio fortemente que apenas as pessoas mais tendenciosas para as emoções a flor da pele poderiam entender a sensação com extrema precisão, algo como se fosse até consigo mesmo.

Jeremy e Vicky são muito parecidos, ambos desejam serem vistos além da casca, porém, são meio que duas pessoas quebradas e sem condições de se ajudarem, já que a miséria de um eleva a miséria do outro, rompendo assim o equilíbrio do que poderia ter sido realmente muito bom.
Isso porque, no fundo, não se trata do que o outro pode oferecer para nos preencher e sim daquilo o que nós completamos em nós mesmos e por nós mesmos.
Mesmo que tivesse dado certo, provavelmente não daria no fim das contas – porque eles ainda não tinham essa compreensão e buscavam em outra pessoa esse algo para acabar com a solidão e o vazio que sentiam.
Vicky mostrava no externo tudo aquilo o que não desejava de verdade no interno e essa fuga de si mesma, pautada em insegurança e medo do abandono, da solidão e da rejeição, foi precisamente grande parte da sua ruína.
Porém, ela foi o aviso dos limites de Jeremy, que ele fez questão de ignorar por capricho.
No fundo, tudo o que ela desejava era que alguém a amasse verdadeiramente por quem era e que fosse vista por trás de toda aquela carapaça além daquilo o que todos a definiam ser.
A grande situação aqui é que a maioria das pessoas só consegue enxergar o que está na superfície e enquanto não nos damos permissão para sermos o que somos no fundo, não temos muita escolha sobre esse ponto.
Se escolhemos não mostrar, não podemos reclamar daquilo o que conseguem ver e se escolhemos nos permitir, o que os outros enxergam não pode ser tão relevante.
Mas, de qualquer uma das formas, é mais sobre o conhecimento de si mesmo e das próprias escolhas do que sobre a opinião dos outros.
Stefan Salvatore e Sinais de um Ego Abusivo
Stefan é um pouco subjugado logo de cara pela própria família, mas nos indica desde o começo a sua incompreensão a respeito de si mesmo e de seu lugar de pertencimento.
Ser diferente não define que os vampiros de TVD não possam conviver nessas diferenças.
O real problema do retorno de Stefan a Mystic Falls não se trata dessas diferenças que parecem ter sido bem pontuadas, mas sim da sua suposta “indiferença” em relação ao que ele evita confrontar em si, já que essa inconsciência de si acaba causando prejuízos a todos ao redor.
Stefan apoia Elena na tentativa de ser uma nova pessoa, mas na verdade esse apoio não passa de algo que é mais sobre ele do que sobre ela. Para ele, qualquer atitude dela reside na perda que sofreu e a não compreensão dele sobre isso faz com que eles pareçam muito diferentes, afinal.
Mas não, não é porque Elena perdeu os pais que admitir que não gosta de ser líder de torcida, por exemplo, seja em razão disso. Ela só percebeu que nunca gostou realmente daquilo e essa verdade a libertou de uma expectativa estudantil e principalmente a que ela mesma impunha.
Inclusive, essa compreensão foi ocasionada graças a honestidade de Damon, pois quem mente para si não consegue enxergar a verdade no outro e Damon tem uma honestidade ácida.
Até sem querer, cheguei a ver um ou outro comentário falando sobre essa situação, como se Damon estivesse manipulando Elena, mas passou muito longe disso. Na verdade, ela admitiu que não gostava mais da ideia de ser líder de torcida porque as coisas que importavam antes pareciam não ter importância mais.
Diferente de Stefan, que parecia fazer questão que ela retomasse a normalidade de uma vida que não mais existia. Damon viu algo sem ela sequer falar sobre, enquanto Stefan estava ocupado demais focando em como estava se saindo bem na sua ilusão de normalidade.

Damon foi a única pessoa que percebeu o quanto isso não a fazia bem, enquanto o resto do mundo a incentivava a mentir para si mesma. Tudo o que ela fez foi admitir diante da percepção inesperada dele que aquela coisa de torcida já não fazia mesmo mais sentido.
Porém, Elena acabava por complicar ainda mais essa situação quando escolhia se manter presa a algo que não desejava mais, simplesmente por uma crença limitante de que algo poderia voltar a ter alguma importância novamente.
Isso foi algo que Damon prontamente a desiludiu ao afirmar que ele acreditava que isso provavelmente não fosse acontecer – uma verdade que ela mesma já sabia.
Ou seja, ele basicamente tornou o inaudito totalmente audível e transformou o que ela problematizava em algo muito simples de se resolver.
Damon reverberou a sua própria alma, porque a via como ela realmente era.
Stefan não, ele é hipócrita, porque ao acreditar que esse apoio é o que ela espera e precisa, ele acaba refletindo nela aquilo o que na verdade apenas deseja para si.
Não é ela quem deseja ser líder de torcida, mas sim ele quem gostaria de levar uma vida normal e cada vez que ele vai se conectando mais a ela, mais percebe que está mais próximo daquilo o que busca – o que vai deixando a situação pesada e não saudável para ambos.
Essa falsa sensação de recomeço o torna cego no fim das contas, pois ele acaba não percebendo o próprio apego emocional, ficando cada vez mais abusivo e tóxico sem querer.
O seu egoísmo fazia de Elena apenas uma peça coringa e uma muleta para as suas desculpas.
Stefan chega até mesmo a burlar um pouco a confiança no início, algo que deveria ser sólido desde o princípio e isso acontece quando, por medo e insegurança, ele dá um colar com Verbena para Elena a fim de protegê-la de Damon.
Considerando que ela não sabia de nada até aquele momento, a sua confiança depositada no presente que recebeu sem saber de nada sobre as intenções dele, é algo bem incômodo de se ver. Ao meu ver, caracteriza uma certa invasão sorrateira e um tanto quanto maliciosa com motivações de fundo egoístas, mas não necessariamente maldosas.
O que ela precisaria, na verdade, seria de proteção contra Stefan e todos os seus problemas internos não resolvidos, que se mascara de bondade e a coloca em zona ativa de perigo.
Stefan quer tanto um recomeço sem perceber que se prende cada vez mais ao passado, que começa a atropelar todas as coisas. Ele tem urgência em viver tudo o que não pôde no passado em relação a Katherine e com isso tudo acaba não enxergando Elena como ela realmente é.
Ele se esforça, dá tudo de si, emenda e corrige os problemas que o irmão causa ao redor com sua espontaneidade e verdade, mas nada disso parece incluir Elena como ela realmente é.
Stefan acaba se tornando uma lembrança ruim, lembrança daquilo o que não pertence e não cabe mais e a sensação que me causa é sempre como se ele quisesse reivindicá-la a todo custo, como se fosse um troféu ou moeda de barganha.
No fundo, talvez seja isso mesmo, já que o real problema de Stefan é na verdade Damon.
Talvez Stefan realmente faça esse joguinho todo e a não aceitação disso faz com que ele termine por acreditar que não faz. É um personagem um pouco irritante porque faz questão de não se enxergar e tende somente a dar desculpas ou culpar os outros por tudo.

Uma cena interessante é quando Elena admite que eles são um par e fica claro que ela não deseja ir adiante com as mentiras que conta para si, enquanto Stefan encara o relacionamento como um “trabalho em andamento”. Elena ao menos o enxerga como parceiro, mas ele só consegue vê-la como um objetivo a ser alcançado ou uma oportunidade para tal, sem perceber.
E isso para o meu entendimento é algo muito longe de amor.
Elena e Damon – A Chama Perpétua que Consome
Damon Salvatore mexe com Elena profundamente e intensamente.
Ele representa, de certa forma, a transparência de sua sombra.
Tudo o que renega em si e todas as emoções que camufla, mas também exatamente o que deseja e ao mesmo tempo precisa. O grande dilema de Elena não é se ama Damon ou Stefan Salvatore, mas sim sobre quem ela é de verdade no seu mais profundo Eu e quem ela realmente deseja ser.
Stefan a conforta e a faz se sentir bem e acomodada – não a respeito de como as coisas costumavam ser e sim sobre o que tudo poderia e como deveria ter sido, sendo esta uma busca mútua desde o início, mas que infelizmente é apenas uma forma de viver preso ao passado.
É através da sombra que se tem a oportunidade real de evoluir para algo além do que o que se acredita ser. É um se tornar mais autêntico, satisfeito e livre de tudo o que amarra e limita.
A sombra é a guardiã da nossa verdadeira essência e Damon faz desabrochar em Elena justamente essa compreensão profunda de si mesma.

Damon desvela as verdades sem gentileza, sem mamão com açúcar e a verdade sempre dói e transforma, justamente porque machuca. Ele escava as emoções mais profundas de Elena e as joga ao mundo sem se preocupar com as doçuras que todos costumam se lambuzar.
Damon funciona como a verdade e é por isso que incomoda tanto Elena, mas ao mesmo tempo que incomoda, liberta. Entra na alma sem pedir licença e a desnuda sem qualquer pudor.
Damon a faz entender que, no fundo, ela não busca ser alguém novo e tampouco ser quem costumava ser. Mas sim, simplesmente ser ela mesma, porém mais autêntica, livre e verdadeira.
Damon e Stefan – Miséria e Egoísmo
Damon é um personagem extremamente interessante e até conseguimos perceber uma certa ponta de inveja por Stefan parecer aos poucos ir levando a vida que sempre quis, enquanto ele fica renegado a própria miséria imposta pelo irmão por puro egoísmo.
É de se esperar que Damon não aceite realmente essa eternidade de solidão, porém ele também precisaria se desapegar do passado e se permitir viver o presente a partir da nova perspectiva que, mesmo sem intenção, Stefan lhe apresenta como oportunidade de redenção.
Damon também tem uma parte de si que prefere não encarar, porém não faz isso de forma cega, já que não perde seu tempo contando mentiras a si mesmo. O que acontece é que simplesmente oculta a verdade de si por escolha, para não se machucar mais com aquilo o que não consegue esquecer.
Pode até parecer que ele mente para si, principalmente quando Stefan o confronta várias vezes colocando em cheque até mesmo a sua humanidade. Ele dá um de rebelde, age de formas monstruosas, apenas para provar que ele não é aquilo o que esperam ou desejam, mas se trata apenas de uma insegurança bem enraizada, pois no fundo tem medo de criar expectativas.
Damon recusa a felicidade, porque tem medo que ela o destrua e por isso escolhe não se apegar – mas ele escolhe isso, não tenta provar as suas mentiras nem a si e nem a ninguém.
Para Damon, é inadmissível que usem a sua vulnerabilidade para atingi-lo, enfraquecê-lo, controlá-lo ou dominá-lo de alguma forma. Então, esse caráter monstruoso é sobre essa vulnerabilidade que ele protege em defesa de si mesmo.
Mentir e ocultar são duas coisas bem diferentes.
Enquanto Damon escolhe ocultar a verdade, Stefan mente para si mesmo – assim como Elena também o faz em boa parte da trama.
No fim de tudo, Damon seria uma espécie de chave entre Stefan, Elena e as verdades não ditas.
CONCLUSÃO
The Vampire Diaries tem toda uma densidade psicológica por trás do construto dos personagens e enche nossos olhos através de um conjunto de tramas afetivas que engloba situações não tão incomuns, ou seja, ela se torna uma espécie de “guia” numa inusitada viagem até nossas emoções mais profundas, embora possa nem parecer muito perceptível logo de cara.
Definitivamente, é uma das séries que eu mais amo na temática Vampiros, pois ela traz para a superfície um algo muito peculiar que reside dentro de nós.
É um diálogo profundo, diretamente com nossa alma.
Esse caráter de diálogo fala muito sobre um certo “Eu Humano” e muito embora eu tenha uma suposição de que talvez você desconheça um pouco sobre vampiros além das lendas, pode ser que essa visão não seja tão compreensível num primeiro momento – até porque essa forma de abordagem se trata, no geral, de uma visão minha um tanto quanto poética e analítica sobre as emoções humanas.
Portanto, para mim, não é apenas mais uma série sobre Vampiros e relacionamentos complicados, mas traz a tona também o conceito de Sombra, que foi exposto até de uma maneira bem leve, por assim dizer, mas que está lá e muito bem apresentada nas sutilezas do fluxo da narrativa.
Os desejos e prazeres, os anseios e medos, o morrer na vida e o renascer na morte, a imortalidade no complexo do espírito, da alma e das emoções – tudo presença perene na sutileza da existência e a Sombra é a linha tênue que faz com que nada realmente seja perdido, mas também não permaneça o mesmo.
Até gostaria de incluir nessa resenha uma analogia com Almas Gêmeas e Chamas Gêmeas, mas deixarei para uma outra melhor oportunidade.



