O presente texto visa compartilhar parte de alguns esclarecimentos que alcancei durante um processo exaustivo de individuação que venho vivenciando nos últimos anos e que ganhou uma força ainda maior atualmente, tratando-se mais de uma vontade repentina em espalhar tais reflexões, confiante de que possa ajudar a clarear os pensamentos de quem talvez esteja passando pelo mesmo.
Que das minhas mãos brotem palavras que sejam fontes repletas de energia de libertação, de coragem e que elas possam chegar até quem mais precisa delas agora. Assim, enquanto torno “materialmente” viva essa experiência, desejo que a força do elemento fogo presente em mim possa auxiliar a elevação da energia elementar do fogo em você, embalando esse momento na imensidão do poder transmutador.
Evolução e Eternidade
Nos últimos dias, tive uma explosão de clareza diante da observação de um egoísmo próprio que notei estar muito do bem velado dentro de mim. Por mais que seja forte a minha inclinação para as profundezas da alma e da mente humana, ainda assim o danado passou despercebido e a percepção de todo esse mascaramento acabou me trazendo uma tristeza profunda quando finalmente me dei conta dele.
No entanto, quase ao mesmo tempo, também experimentei uma sensação de libertação que somente a aceitação sobre algo doloroso consegue trazer e reconhecer a limitação perante situações que estão conectadas com um aspecto primordial de nossa essência é uma realização extremamente difícil de transpor com leveza e naturalidade, porque causa uma dor imensa e por isso mesmo sofremos.
Costumeiramente, o ser humano não está inteiramente preparado para lidar com aquilo o que não consegue controlar, ao menos não no mundo em que vivemos atualmente, e essa dificuldade em lidar com certa “desorganização” interna caracteriza muito bem o constante movimento de evolução.
Somos como cristais em processo de lapidação sem, no entanto, perder a preciosidade de sua essência bruta e por isso estamos aqui – para aprender, amadurecer, nos desenvolvermos e evoluir.
Fazer valer a oportunidade de estarmos aqui, podendo presenciar as belezas desse mundo e fazer parte da criação de coisas tão belas aos olhos do espírito, porque a vida é muito além do que se vive e o viver é muito mais do que apenas construir bens materiais, padrões sociais, vaidade e conquistas superficiais.
É dedicação que precisa ser constante e diária, portanto, não existe uma real imposição sobre nada, mas sim a existência daquilo o que precisa ser resolvido e equilibrado para que tudo caminhe de forma fluida, com leveza constante e muita naturalidade, para que possa ser o que nasceu para ser e como precisa estar.
Por isso, acho estranho como o ser humano tem mania de querer colocar um limite em tudo, mesmo quando penso no âmbito espiritual, porque a meu ver evolução espiritual não representa necessariamente finitude. Penso que talvez seja mais como categorias ou degraus que representam espécies de fases no grau de sabedoria de um espírito – que vai se estendendo conforme novas perspectivas surgem.
Se é comum aceitar a ideia de que tudo no universo está em constante movimento e evolução, por que seria diferente com o próprio processo de evolução do espírito? Até mesmo a física pode ajudar nesse pensamento se considerarmos que toda ação tem uma reação e desse modo, penso que mesmo que se atinja o ápice da evolução do espírito, esse alto nível trará provavelmente novas nuances de coisas a serem aprendidas a partir daquela perspectiva nova ou situação nova.
Essa é a infinita constância da vida e por isso a eternidade é justamente essa inevitável constância da evolução que sempre acha o próprio caminho de continuar a coexistir.
Mas enfim, aprofundar tais reflexões é tópico para um novo artigo onde eu esteja realizando novos estudos, já que, sinceramente, penso que esta seja uma visão talvez superficial da minha parte ao considerar que ainda me faltam muitos conhecimentos sobre Espiritualidade.
Mas deixo por alto no universo essa forma até simplória de enxergar a evolução espiritual humana.
Autossuficiência que Culmina em Egoísmo
Em um diálogo comigo mesma por certo tempo, a partir da percepção de uma necessidade em aceitar minhas limitações diante de uma situação específica em minha vida, foi que descobri que também a insistência em permanecer resistente sobre aquilo o que não tem condições de ser sustentado, trata-se, na verdade, de uma forma velada de egoísmo em relação ao objeto com o qual busca-se ter algum êxito ao resistir. Parece óbvio, mas não é tanto assim quando esse egoísmo se reveste de camadas de falsas crenças.
Achar que somos capazes sempre de lidar com todas as coisas, que podemos dar um jeito em tudo ou que tudo vai ficar bem, enquanto preenchemos tais atitudes de uma necessidade em abarcar tudo, seja por confiar apenas em si mesmos ou por acreditar que ao não conseguirmos somos fracos ou estamos desistindo, ainda que as intenções sejam boas e verdadeiras, não é exatamente muito resolutivo quando a verdade da qual se foge se trata de assumir que naquele momento não podemos arcar com aquilo.
Insistir nisso é ser demasiado egoísta se o resultado disso causa dor e sofrimento aos outros em situações específicas, como por exemplo, problemas de saúde ou infelicidade nas relações amorosas.
Esse sentimento desapercebido que causa imensa angústia, por vezes acaba tornando os aspectos primordiais de nossa essência bastante deturpados, como quando diante de algum valor central de nosso self. Se esse egoísmo detona um valor predominante ou alguma virtude muito importante, é possível que vejamos como grave ofensa a nós mesmos e isso venha a gerar, inclusive, uma nova forma de negação.
Esse aspecto velado do egoísmo, mascarado por trás de atitudes muitas vezes nobres e corajosas, acaba pairando fortemente sob uma área de incoerência que apenas se manifesta exalando profunda hipocrisia e quando finalmente conseguimos perceber a situação, já sofremos demais da conta e também fizemos sofrer.
O choque de realidade pode ser intenso demais para que não provoque certa avalanche de emoções negativas, por seu caráter repentino e extremamente doloroso de se enfrentar.
Uma mistura de culpa, frustração, desgosto, incredulidade e tristeza emergem quando tal aceitação repentinamente reconhecida brota de uma honesta humildade interior para consigo mesmos e que se ilumina bem diante de nossos cansados olhos.
Sermos curiosos para ir mais fundo nessa viagem interna, buscando sempre compreender o que está por trás de nosso possível egoísmo é necessário e muito edificante. Não se trata apenas de reconhecer uma possível crença limitante que nos mantém aprisionados num achismo repleto de escassez sem nos darmos conta, mas também de sermos curiosos naturalmente, a fim de entender qual é o aspecto emocional que favorece o apego e que nos leva a promover tantas atitudes egoístas.
Aceitação ou Resignação?
Sair da zona de conforto nunca traz consigo uma forma de contato muito agradável e não é por menos que isso tudo nos faça sentir no mínimo incomodados. Essas respostas são mesmo complicadas e sempre geram dúvidas ou mais dúvidas do que já tínhamos anteriormente – algo bastante confuso.
Reconhecer que não há condições de sustentar certas idealizações não define absolutamente nada além da simplória compreensão de que apenas é algo que não é imediato.
Trata-se apenas de uma passagem de nossas vidas onde algo não pôde ser em dado momento e ninguém é fracassado ou desistente por aceitar algo assim, sendo que esse tipo de sentimento é apenas fagulha de uma provável dor instalada profundamente numa criança ferida que se revela durante o processo de encarar face a face o que foi renegado com tanto afinco por tempo até demais.
É uma atitude de enorme coragem reconhecer uma limitação e se desprender do egoísmo que aprisiona em ações mesquinhas e escolhas deletérias e isso afeta não apenas a si mesmo mas tudo ao nosso redor, sendo assim, essa humildade e honestidade internas nos permitem alimentar atitudes e escolhas mais verdadeiras e repletas de mais sabedoria, clareza, amor e eliminar todo o sofrimento desnecessário.
Sendo assim, não é possível promover amor genuíno quando estamos presos às nossas próprias emoções danosas, pois elas sempre reverberam no mundo em forma de um egoísmo colossal.
No entanto, existe um perigo sutil nesse estágio que é muito real, pois é exatamente nesse momento que se torna ainda mais favorável confundirmos essa aceitação com resignação – dois conceitos bastante distintos.
A aceitação envolve consciência e a resignação implica numa nova forma de fuga.
Assim, saber discernir se estamos simplesmente entendendo conscientemente os fatos da realidade que nos cerca e envolve ou se estamos lavando as mãos ao nos acomodarmos no sentimento de derrota e incapacidade que essa descoberta possa resultar, é de imensa importância para que possamos manter a essência construtiva dessa percepção que traz consigo uma gigante chamada LIBERDADE.
Amor ou Egoísmo?
Muitas vezes existe em nós um medo em admitir nossas limitações ou impossibilidades, porque no fundo não queremos largar mão daquilo o que achamos que mais precisamos em nossas vidas.
Porém, ao escolhermos não desistir daquilo o que parece muito importante, e que nos mantém amarrados a algo que só nos causa angústia e dor, acabamos influenciando tudo negativamente e isso até parece tangenciar em certo ponto um pouco sobre a questão do amor-próprio se pensarmos de forma mais superficial nesse momento, mas não é exatamente desse tipo de situação que falo.
Estou falando de situações em que percebemos nossas limitações ou insuficiências e ao invés de aceitarmos isso com humildade para termos mais paz interna e atitudes mais verdadeiras com o que nos cerca, acabamos escolhendo continuar agindo do mesmo jeito, ocasionando por isso mesmo muitos sofrimentos desnecessários em razão de um egoísmo que muitas vezes não é nem intencional, mas que ainda está enraizado em alguma dor interna não curada que se manifesta a partir dessa alimentação constante de uma forma de carência afetiva que domina basicamente tudo em nossas vidas.
Ao olhamos por essa perspectiva, fica claro que algo assim não poderia ser amor e sim egoísmo mascarado de afeição ou boa intenção, independente de você se considerar uma pessoa boa ou ruim.
Amar é Faca de Dois Gumes
Admitir que o melhor para o outro é abrirmos mão daquilo o que mais achamos que precisamos ou queremos em nossa vida é uma decisão que exige muita coragem e força interna, tanto para aceitar quanto para se manter resiliente diante do que toda essa decisão vai realmente custar a si mesmo.
Por isso, não é processo tão simples como pode parecer, especialmente se estivermos falando, por exemplo, de uma relação amorosa de qualquer tipo. Isso não é ser fraco ou desistente, é simplesmente reconhecer que naquele momento de nossas vidas não estamos fazendo bem a algo ou alguém e que esse apego ao que se acha que precisa em relação a esse algo ou alguém está causando dor e sofrimento para todos os envolvidos. Nada disso é saudável, nada disso é construtivo de verdade – é apenas looping de dor.
Esse entendimento pode e deve ser adaptado ao que lhe convier, porque realmente a compreensão dessa visão está fortemente relacionada a situação X ou Y em que se vive.
Pode ser que o caro leitor relacione isso com algum caso amoroso ou familiar e veja verdades convenientes, mas pode ser que seja sobre seus pets ou mesmo suas presentes amizades, como foi no meu caso.
Tudo é perspectiva e ainda assim ao fim da reflexão nada disso realmente importa, pois a única coisa que tem realmente valia reside no entendimento dessa mensagem e como ela toca o seu coração.
Por fim, penso que amar é faca de dois gumes e esse aprendizado traz consigo a magia da oportunidade de crescimento sempre que escolhemos um caminho ou novo caminho a se seguir.
Reconhecer uma limitação, aceitar essa forma de vulnerabilidade diante de nós mesmos e soltar o laço que nos une a uma autossuficiência excessiva para lidar com certas situações em nossas vidas sob o viés de atitudes nobres de amor, é uma forma de liberdade – e também de amor genuíno.
Mesmo uma perda pode terminar em reconquista no futuro ou simplesmente nos agraciar com aquilo o que realmente merecemos ter em nossas vidas. Por isso, cabe bem para finalizar, pensarmos que se algo está destinado para ser nosso, encontrará caminho para nos encontrar ou reencontrar, culminando num lindo “assim será” – porque amar também é soltar e abdicar daquilo o que não acha seu tempo de ser.



