Despretensiosa Serenidade de Liberdade
O pensamento sobre o tempo, a existência e a liberdade não me perdoam, não consigo evitar o sentimento de quietude e a vontade de isolamento que trouxe consigo uma tal serenidade que não sei de onde surgiu e que, ainda assim, foi livramento de expectativas e também de algumas das muitas preocupações.
Não que a vida tenha acabado após isso, se paro e deixo tudo andar no seu próprio ritmo de ser e estar, porque tudo permanece se movendo e muito mais quando esse mover-se é alimento de nossa vontade, no entanto, essa serena solitude agora parece bastante diferente do habitual.
O resumo é que a dor trouxe o sofrimento, o sofrimento excessivo trouxe o desespero e o que se segue é caminho sem volta que entope o espírito de alívio e também até parece balde entalhado de escárnios.
O desespero profundo que do labirinto emerge e se encaminha para uma quietude sem fim e essa mesma quietude num jorro transporta esse vômito até uma avassaladora e indiscutível honestidade.
Tudo Converge Para o Início
Foi assim que eu me vi distante das expectativas mas também das necessidades, num espaço atemporal em que tudo o que ouço é a voz da alma ecoando em meu próprio silêncio sem que se possa mudar e sem, na verdade, nem ao menos desejar mudar. A alma cansou de muito sofrer, mesmo que tal sofrimento fosse intento de choque misericordioso nas emoções embotadas a fim de perceber que o que parecia tão morto ainda vivia enormemente dentro de si.
Essa morte de todas as coisas é inevitável e aumentamos a dor cada vez que nos negamos a aceitá-la, cada vez que não damos permissão para uma nova versão que precisa nascer e assim giramos desenfreadamente no turbilhão de um pseudo self que parece se eternizar na ferocidade de um furacão.
Ainda que se goste disso ou daquilo, nunca se vive por completo isso e aquilo e tantos issos não deixam de não se incorporar a toa, pois na realidade nunca é preciso questionar o que tanto se questiona.
Não passa de apenas uma das tantas necessidades humanas na tentativa de capturar a compreensão de uma complexidade que é bela por si só e não precisa realmente de ajustes, apenas de aceitação.
Mas se não se questiona, não se compreende e se não se compreende não se alcança a clareza, se não se alcança a clareza então permanece-se ignorante e se assim o é, não se evolui.
Bem, sim e não.
Pois apenas observar e sentir ensina muito mais do que a necessidade em si de buscar respostas e catalogar tudo – ela é a compreensão natural proveniente da magia do existir como se é.
Não se trata de uma apologia ao não pensamento e sim de um incentivo ao equilíbrio dos extremos, pois para mim a compreensão da complexidade da existência e o pensamento humano não partem do questionamento mas sim do observar e do sentir e uma coisa naturalmente leva a outra, numa perfeita conjunção.
O Sentido da Existência
No universo nada parece fazer sentido e ao mesmo tempo parece ter sentido em cada pequeno detalhe, mesmo tendo consciência de que esse mesmo sentido também não deixa de ser mera percepção humana.
Coincidentemente esse pensamento me lembrou de um pequeno e muito bonito trecho do dorama chamado Entre a Razão e a Emoção, que também tem uma resenha crítica aqui no blog, quando a personagem Shen Ruoxin fala sobre Carl Sagan e a indiferença do ser humano diante da perspectiva do universo.
Tudo o que é grandiosamente problemático para nós, no fim das contas não é nada do ponto de vista do Sol.
Assim, olhei ao redor e pensei que se tenho aranhas e gatos como companheiros do cotidiano, isso não é realmente um problema, já que o sentimento humano também é mera perspectiva e portanto não existe.
Um jarro de barro é apenas um jarro de barro para mim, no entanto, quem poderia dizer o que ele realmente é? Esse jarro continua muito belo sob os meus olhos e penso que também assim são os sentimentos do ser humano. Nesse momento, por alguma razão, me lembrei de um trecho icônico do filme V for Vendetta.
“Quem é você?
Quem é só uma forma que deve ter um porquê.
E o que eu sou é um homem de máscara.
Mas é claro que já, não questionei seus poderes de observação
apenas enfatizei o paradoxo de perguntar a um mascarado quem ele é.
Mas nessa noite auspiciosa permita-me que em lugar de uma alcunha corriqueira
eu sugira o caráter dessa persona dramática.”
Bem, o ser que existe é uma obra e nada foi feito com tanta perfeição no universo quanto a própria vida.
Juntamente disso, parece-me agora que a perfeita conjunção só deve se tornar possível a partir da perspectiva de nada se ter e esse entendimento torna todas as “coisas humanas” irrelevantes.
Que me importa não ter nada? Provavelmente eu já tenha tudo quanto possa desejar e isso só pode resultar em desapego absoluto ou Eudaimonia absoluta. Mas também por que não os dois?
Um bailar mais do que perfeito.
Por fim, assim mesmo, meio sem pé e meio sem cabeça, na leveza do que nasceu para ser leve, percebo que amo tudo o que me satisfaz e no entanto não sou inteiramente tudo o que me satisfaz e não o quero ser, pois meu amor verdadeiro é ser livre de tudo quanto eu possa me libertar, numa despretensiosa serenidade que embala dias contados sem que eu porventura venha a saber mas que converge sempre o início e o fim de todas as coisas que residem bem no meio de mim.



