Uma Gigante Empobrecida
Nessa Era da internet, não me considero anti-internet e provavelmente nunca será desse modo já que gosto imensamente do seu caráter de utilidade. No entanto, essa característica também não a torna necessariamente algo imprescindível em nossas vidas, pois experienciar o que para a maioria pode parecer uma ideia até bem nostálgica é extremamente fabuloso sob o meu olhar.
No fim das contas, nunca precisamos realmente da internet para fazer a vida terrena funcionar mas ainda assim desde o seu surgimento forjamos nossa sociedade para necessitar dela como se fosse o ar que respiramos. É triste perceber como as pessoas parecem perdidas e entediadas com a vida quando do nada se perde a conexão com toda a facilidade, acessibilidade e entretenimento que ela proporciona diariamente em nossas vidas.
Perdeu-se o prazer pelo saber fazer, pela curiosidade em buscar compreender, pela criatividade em criar algo que é mais útil do que somente belo. As pessoas deixaram de apreciar o momento, a presença uns dos outros e de si mesmos, deixaram de ter paciência para construir ou refazer, escrever, ler e conversar. Deixaram de acreditar que algo de bom surge a partir de suas próprias mãos e de ter tempo para ouvir o mundo e a si próprios quando abriram somente espaço para o consumo caprichoso e a necessidade de aceitação, valorização ou pertencimento.
A vida não mudou, quem mudou fomos nós. Sempre fomos capazes de criar e cocriar não somente nossa realidade mas também as coisas concretas. Precisar de um grande esforço e de muita criatividade para buscar um algo que é extremamente difícil de alcançar é construtivo e isso não é romantizar a dificuldade ou ter somente uma personalidade que ama conquistar, é apreciar a beleza peculiar que existe em cada etapa do processo e quanto mais simplória mais parece cativar.
Essa visão talvez retrógrada e a percepção de como a internet se comporta atualmente traz a tona um questionar e refletir se em algum momento na construção de nossa história seria realmente suposto que ela viesse a se tornar algo diferente do que foi até o momento considerando que ao fim de tudo costumeiramente os fins parecem sempre justificar os meios.
Sim, quero falar sobre isso com o verbo no passado, pois percebo que o mundo está mudando radicalmente e tal mudança afeta a maneira como nos relacionamos com ela e esta por fim passa a se relacionar diferente conosco. Bem, por vezes podemos olhar para trás e nos lastimar pela forma grotesca como algo desse calibre tomou tal forma diante de nossos olhos – uma certa meia coisa ou um algo deturpado e empobrecido ainda que exista a compreensão de sua riqueza.
Fagulhas Divinas
Mesmo que essa mudança seja nítida, que as transformações tomem uma proporção cada vez mais do que claras e que ainda vejamos uma parte cabulosa da sociedade se aproveitando do mesmo jeito de sempre, a fim de enaltecer o que já não cabe mais na vida atual, ainda assim consigo notar uma parcela que parece ter sido escolhida a dedo para empurrar a humanidade para um novo estágio de realização e existência, algo que me emociona todas as vezes um pouco mais sempre que encontro essas pessoas brotando por aí como se fossem agulhas num palheiro pegando fogo.
Sincronicidade, eu suponho. Assim, me parece ainda mais ouro quando essa riqueza não flopa mas encontra quem precisa encontrar, inusitadamente, nessa belíssima dança sinérgica que é a vida.
É como um empurrar adiante que nasce quase sem querer de uma despretensiosa vontade de se espalhar aos quatro ventos apenas para sentir a liberdade de simplesmente ser e existir ou porque compreende a proporção do que pode doar sem esperar receber.
A doçura do partilhar pelo puro prazer de dividir e não de vender, um algo que não se compra em lugar algum e não se compara mas que se sente profundamente e que se experiencia desprovido de todo o peso e de todas as máscaras como se fôssemos crianças provando um doce nunca antes saboreado mas que muda qualquer paladar no mesmo instante em que se manifesta para só assim então tornar a se apresentar todos os dias num eterno ‘sim’ ao ar puro que habita dentro de si.
Um retorno real à consciência do refletir, do sentir, do existir e aqui faço uma pausa para reflexão.
A Liberdade dos Meios
Os hábitos antigos vem sendo imensamente apreciados e os nebulosos em busca de oportunidades ainda estão por aí de olho a fim de ruminar o essencial para então vomitá-lo uma vez mais totalmente deturpado a quem precisa projetar e se manter sob projeção constante.
É claro que esse aspecto provavelmente sempre vai existir e quem assume o papel precisa mesmo assumi-lo, pois não se conhece verdadeiramente um lado sem antes reconhecer o seu oposto, mas ignorando esse detalhe é possível ver além disso também e não porque o antigo é realmente melhor mas porque é mais simples e mais leve de um jeito estranhamente complexo cujo resultado penso ser compreensível propriamente apenas por quem presenciou ambos os momentos.
Essa noção de época melhor ao mesmo tempo traz consigo uma carga de época horrível mas que incrivelmente na atualidade perde a força como se nunca tivesse realmente existido no espectro. Fez-me lembrar de algo que assisti tempos atrás mas que me marcou profundamente ao conversar ainda mais com certos ajustes que eu já vinha realizando em minha vida nos últimos meses.
Era um vídeo restaurado com cores e que havia sido filmado em 1929, aparentemente de pessoas que nasceram em 1800 e bolinhas. Fiquei muito impactada ao perceber que as pessoas naquela época costumavam viver para além dos cem anos, uma situação que dificilmente se concretiza nos dias atuais e que insisto que reflita, pois imagino que perceba o porquê dessa imensa diferença. Enfim, olhar para trás não me parece ser de fato uma forma de reaprender mas sim de um aprender – aprender a viver no meio termo daquilo o que representaram tais épocas, por assim dizer, o que também faz questionar se realmente a humanidade precisa tanto assim dos extremos.
Mas volte aqui comigo e veja bem que, mesmo tendo observado isso, eu não me refiro às coisas novas nem às antigas, mas sim a uma tal prosperidade que reside num palácio interno outrora ignorado e que no exato momento em que é percebida nunca mais torna a brilhar no seu inverso – brinca com o anverso e reverso a todo momento, porém sabendo como conduzir a própria vida em total alinhamento e lealdade a tal interiorização verdadeira.
Nas mãos de quem sabe o que busca, uma rede deixa de ser força de identidade e pertencimento pois a gigante não é ela em si e sim as mãos de quem sabe o que quer construir para si, e por isso mesmo, gosto de pensar que só cai nessas armadilhas quem não observa com cuidado a si mesmo.
Escolha o que realmente presta
Tudo isso para dialogar sobre um pensamento que tive mais cedo, o de que escolho consumir aquilo o que realmente me agrega, o que é construtivo e edificante, que toca a alma profundamente e chama o espírito, aquilo o que ajuda a ter cada vez mais clareza sobre minha própria luz e escuridão e sobre as virtudes que desejo alimentar para ser cada vez mais livre e autêntica num mundo que só sabe barganhar pelo o que não é e nunca será negociável.
O mundo quer ter voz para o mundo mas não consegue sequer ter voz para si mesmo.
Ver, ouvir, ler e reproduzir é só viver como espectador de expectativas, uma nova forma de piloto automático baseado naquilo o que se acha que espera-se de si. A internet sempre será armadilha.
E isso para mim não é liberdade, é covardia.
Já observar, sentir, experienciar e refletir, por outro lado..



